Na tarde da última segunda-feira, iniciamos a disciplina de doutorado Tecnologia Digital no Ensino, ministrada pelo Prof. Dr. Fernando Pimentel. Desde o primeiro contato, a experiência se mostrou bastante diferente do que eu imaginava, configurando uma verdadeira ruptura do Contrato Didático. Conforme Guy Brousseau (1986), esse rompimento ocorre quando situações inesperadas desafiam as regras previamente estabelecidas na relação entre professor, estudantes e o saber. Ainda segundo o autor, o contrato didático corresponde ao conjunto de normas, expectativas e comportamentos que orientam essa relação no contexto da sala de aula.
Acostumado a um modelo mais tradicional — no qual a primeira aula geralmente segue um roteiro previsível, com apresentação da disciplina e formação de grupos por afinidade —, deparei-me com uma proposta completamente distinta. Fomos convidados a nos levantar, formar grupos, trocar contatos, registrar o momento com fotos e compartilhar curiosidades. Essa dinâmica inicial já indicava uma mudança significativa na condução da aula. Outro aspecto que chamou minha atenção foi o fato de o professor sentar-se no chão, gesto pouco comum no Ensino Superior e que simbolizou, mais uma vez, a quebra de expectativas previamente estabelecidas.
A parábola do “copo vazio” mostrou-se bastante pertinente ao contexto de estudantes de pós-graduação, ao reforçar a importância da abertura ao novo e da disposição para ressignificação. No que diz respeito à organização da disciplina, a adoção da metodologia PBL (Problem-Based Learning) também representou um afastamento do modelo tradicional centrado em seminários expositivos, surpreendendo positivamente ao propor uma aprendizagem mais ativa e investigativa.
Referência utilizada para tratar de Contrato Didático:
BROUSSEAU, G. Fondements et méthodes de la didactique dês mathématiques. In: Recherche em Didactique des Mathématiques, v. 7, n. 2, p. 33 – 115, 1986.
Oi Felipe. Seu relato demonstra um olhar teórico apurado e uma capacidade interessante de analisar a experiência vivida à luz do conceito de contrato didático. Ao mobilizar Guy Brousseau para interpretar os acontecimentos da aula, você não apenas descreve a ruptura, mas a compreende como movimento intencional e formativo. A observação sobre o gesto simbólico do professor ao sentar-se no chão e a percepção da renegociação do contrato ao longo da atividade revelam sensibilidade para compreender a sala de aula como espaço dinâmico, relacional e em constante (re)construção.
ResponderExcluirPara aprofundar ainda mais essa experiência, sugiro que visite os blogs dos colegas e dialogue com as leituras que eles fizeram dessa mesma aula. Comparar percepções sobre a ruptura do contrato didático pode ampliar sua análise e revelar dimensões que talvez tenham passado despercebidas no seu olhar individual.
E deixo uma provocação para seguir nessa postura “aventureira”: se o contrato didático é constantemente renegociado, até que ponto estamos realmente dispostos a abrir mão do controle que ele nos oferece para sustentar práticas verdadeiramente inovadoras?
Pensar sobre isso é um paradoxo contínuo, pois, por vezes, somos atravessados pelo desejo de inovar, ao mesmo tempo em que nos deparamos com a necessidade de manter certo controle pedagógico. Nesse contexto, a renegociação — assim como a ruptura do contrato didático — torna-se não apenas possível, mas necessária, uma vez que a inovação emerge justamente quando os contratos considerados “tradicionais” são tensionados e, em alguma medida, rompidos.
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